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A partida de Günter Grass

     O Prémio Nobel da Literatura de 1999 faleceu ontem, aos 87 anos, na cidade de Lübeck, Alemanha.
     Nascido a 16 de outubro de 1927, em Gdansk, integrou as Waffen-SS hitlerianas durante a II Guerra Mundial e acabou por ser capturado, em 1945, pelas forças aliadas após ter sido ferido.
     A sua carreira literária teve início em 1959 com a publicação da obra O Tambor de Lata, posteriormente traduzida em várias línguas e adaptada ao cinema.
     Seguiram-se-lhe cerca de mais 30 obras, distribuídas por diferentes géneros (romance, poesia, teatro, textos autobiográficos), como Uma longa história, Mau agoiro, O cão de Hitler, Descascando a cebola, A caixa, O meu século, O pregado, A passo de caranguejo.
     O escritor e artista plástico, polémico assumido, consciência crítica da Alemanha nos últimos anos, não possuía telemóvel e dizia que a ideia de o ter e "estar sempre contactável e de certa forma observável" o aborrecia. Aliás, as (novas) tecnologias e as redes sociais tinham para si o efeito de uma alergia. Assim, escreveu sempre os livros à mão, passando-os depois através da sua velha máquina de escrever. Mais: quando os seus netos lhe falavam no Facebook e lhe diziam que tinham "500 amigos", Grass respondia: "Quem tem 500 amigos, não tem amigos.".

Curiosidades Científicas

     O jornal I , com o apoio do projeto Ciência Viva, tem vindo a publicar, na sua última página, questões curiosas de ciência com as respetivas respostas de cientistas.
     A lista de perguntas e respostas pode ser encontrada aqui.

'O Poema', Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
— Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra a carne e o tempo.


[in Ofício CantantePoesia Completa, de Herberto Helder, Assírio & Alvim, 2009]

Um poema de Herberto Helder

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação,
¿e se me tocam a boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação,
¿e se me tocam a boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na fase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

                                                                      [in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, 2008]

Calou-se um poeta: Herberto Helder


     O poeta Herberto Helder faleceu na passada segunda-feira na sua casa de Cascais, aos 84 anos.
     Considerado por vários autores o poeta mais importante da segunda metade do século XX, à semelhança de Fernando Pessoa na primeira, Herberto Helder criou uma obra notável, uma espécie de «poema contínuo constantemente reescrito», que culminou com a publicação de A Morte sem Mestre, em 2014.
     O escritor nasceu a 23 de novembro de 1930 no Funchal e publicou os seus primeiros poemas precisamente em antologias madeirenses - Arquipélago (1952) e Poemas Bestiais (1954) - e na revista "Búzio". Já a sua obra de estreia, O Amor em Visita, datada de 1958, foi editada pela Contraponto, numa época em que o poeta fazia parte do grupo surrealista lisboeta que tinha como figuras principais Mário Cesariny e Luís Pacheco.
     Frequentou entretanto a Universidade de Coimbra - primeiro a faculdade de Direito e depois o curso de Filologia RoMãnica -, mas não concluiu a sua frequência. Nessa fase da vida, teve vários empregos (uma «tradição» que manteve ao longo de grande parte da existência), desde a Caixa Geral de Depósitos até ao Serviço Meteorológico, passando pelas áreas da publicidade e da propaganda médica.
     Em 1961, publicou a obra que o consagrou enquanto poeta: A Colher na Boca. Seguiram-se-lhe muitas outras, como Vocação Animal (1971), Cobra (1977), O Corpo o Luxo a Obra (1978), A Cabeça entre as Mãos (1982), A Última Ciência (1988), Do Mundo (1994), A Faca não Corta o Fogo (2008) ou Servidões (2013), bem como os intervalos de tempo de eclipse.
     Avesso a aparições públicas, a fotografias e a entrevistas, recusou, em 1994, a atribuição do Prémio Pessoa, pedindo que o dessem a outro.

Centenário de "Orpheu"


     Comemora-se hoje o centenário da revista Orpheu, o órgão do Modernismo português, cujo número inicial terá saído da gráfica a 24 de março de 1915.

'O Incrível Rapaz que Comia Livros'